domingo, 3 de janeiro de 2010

viajei com Baudolino, tal qual rei mago pirata

Esse é o peso das palavras de Baudolino, protagonista do primeiro romance do Umberto Eco que li:
“[...] Quando íamos para Roma um padre chamado Corrado contava para mim as mirabilia daquela urbe, dos sete autômatos do Capitólio, [...] ou das estátuas de bronze que se moviam sozinhas, ou de um palácio cheio de espelhos encantados... Depois chegamos a Roma, e naquele dia em que estavam se matando, dei no pé e segui pela cidade. [...] vi apenas rebanhos de ovelhas entre ruínas antigas, [...] Ao regressar todos me perguntavam o que vi, e o que podia dizer, que em Roma havia apenas ovelhas entre ruínas? Não acreditariam. Assim, eu contava certas mirabilia que haviam me contado, acrescentando outras, [...] Todos ficavam suspensos das minhas palavras e diziam que pena que tivemos de matar os romanos e não pudemos ver todas aquelas mirabilia. Assim, durante todos esses anos, ouvi as maravilhas da cidade de Roma, na Alemanha, na Borgonha e inclusive aqui, só porque falei a seu respeito.”

Baudolino é mentiroso de mão cheia, tanto que confessa: “O problema de minha vida é que sempre confundi aquilo que via com aquilo que desejava ver”.

Através dele, Eco tece um épico delicioso, brincando com os fatos históricos através de uma testemunha não confiável e, no entanto, irresistível. A obra, de natureza fantástica e com genes de romance policial (tal qual O Nome da Rosa, segundo dizem) é uma mentira erudita apaixonadamente verdadeira. Se conhecemos a história de Baudolino em seu testemunho ao historiador Nicetas Coniate (1150-1215), conhecemos uma história da formação da Europa e de sua mentalidade e espiritualidade através do último narrador, o próprio Eco, que nos cumprimenta com uma piscadela comprometedora na última frase do livro.

As mentiras de Baudolino permitem a Eco estabelecer mitos à sua cidade natal, antes desprovida dos mesmos. A ficção de Eco não mente, porém: nos conta verdades estonteantes, justamente quando os fatos são mais suspeitos. Aconselha o bispo Oto a Baudolino: “O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.”

Conforme Baudolino deixa a idade média documentada e verificável e se aproxima do reino do Preste João, num extremo oriente fantástico, vou deixando as suspeitas, bem ali, quando mais precisava não acreditar.

Jovem camponês adotado pelo imperador Frederico I, o Barba Ruiva, Baudolino ajuda na fundação de Alexandria da Itália, escreve a famosa carta do preste João, fabrica relíquias religiosas, dá velas e ventos ao mito do Graal e viaja a um reino fantástico habitado por monstros. E no fim parte de novo para cumprir promessas feitas a quimeras que nos convencem. “Viajar rejuvenesce”, diz ele. Atravessar esse tomo vale por uma pequena peregrinação. A passagem me custou umas velharias errôneas da adolescência que faziam peso na minha estante. Fiz a permuta num sebo. Levo esse objeto cheio de letras, agora que o conheço, dentro de um relicário habilidosamente falsificado, no alforje dos meus favoritos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natalis Solis Invicti

Lá se vai mais um Sol Invicto, levando na garupa esses fantasmas de porre: Yeshua, Mitra e Nicolau. Aqui o produto foi bom: descansei. Não houve parentes. A coelha Alice correu feito doida pela casa, enquanto nossa filhinha dormia sossegada, cansada. Um vizinho, antes formalíssimo, veio me abraçar, alcoolicamente alegre. Falei com as pessoas, desejei verbalmente felicidade a elas, que semanticamente deveria durar só até o fim da festa. Ah, essas pegadinhas da tradição... Mas a memória precisa durar pelo ano inteiro e volto aqui a desejar verbalmente, se isso adiantar: feliz vida, malandragem.

Acho até bom, por enquanto, que uma data (mesmo uma data religiosamente extraviada) faça alguns bobos por aí se comoverem, ou até fingirem a comoção. Acho que até a comoção fingida dessa data eu posso suportar, pois no meio dela, alguns podem ser sinceros, protegidos pela multidão, desenrustidos. E podem dizer que te querem bem, além da formalidade forçada da comemoração e da compostura sóbria do resto do ano.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sem Reflexo em Espelhos

Em certas curvas conhecidas da idade do Homem, se esperam certas resoluções: subjetivas, é certo, a ponto de não ser possível afirmar alguma coisa concreta sobre elas. As pessoas agregam títulos esotéricos a essas idades e delas se esperam crises e mudanças espirituais. Nunca fui de esoterismos e até o momento não houve crise de idade que me pervertesse.

Se recentemente me meti em longa depressão, foi pra sair dela (será que saí?) convicto de que a idade em si nada tem a ver com essas tribulações. Fiquei 4 meses sem escrever uma sentença maior que 140 caracteres. Fora do buraco, após ter produzido umas coisinhas irremediáveis, cheguei a me alegrar prevendo uma fronteira significativa: quase pude divisar algum planeta esotérico apontando uma “fase” nova na minha vida, do tipo que se vê em folhinha de horóscopo.
Cá estou eu de volta ao buraco, algumas horas depois, por pura sinceridade minha. Sim, porque é necessário sinceridade pra não se auto-enganar e fazer a dança mística do comportamento auto-induzido, influenciado por gurus comportamentais, esses que têm um nicho de mercado infinito e altamente garantido. Fosse eu um auto-ajudado insincero, estava gastando toda minha energia na tarefa errônea de tentar me manter dentro do estereótipo dalguma fase biográfica teatralmente fabricada. E fazer isso exige ser um vampiro e não refletir num espelho.

Então decidi que pouco sabemos sobre nossas fronteiras psicológicas. E que não caio nessa de contornar minha vida com ficções comportamentais hétero-sugestionadas e auto-induzidas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

dione


Óleo sobre tela

roda da morte

Lápis e nanquim, para o conto Atropelo

cabeça

Lápis no sulfite, para o conto Vida Fabril

sábado, 1 de setembro de 2007

Duas Garrafas


Acrílica no canson.