quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Baltimore e o Vampiro

Embora não esteja relacionado com o universo de Hellboy, Baltimore e o Vampiro transpira o clima e a geografia que Mignola forjou no demônio vermelho. Se Hellboy tem uma mão de pedra, amuleto de sua sina e de seu poder, Lorde Baltimore tem uma perna de madeira cravejada de pregos sob a mesma simbologia. Na coluna vertebral da história, está O Valente Soldado de Chumbo, de Hans Christian Andersen, emprestando uma assombração de fábula ao conto gótico do caçador de vampiros.

Em busca de vingança, Baltimore inicia sua implacável caçada ao vampiro que lhe privou de uma perna e de sua família inteira, exterminando a praga que agora cobre a Europa. Forjado num paladino sobrenatural, Baltimore caminha na lâmina do lugar comum, prestes a se cortar mortalmente, porém, escapando graças à sinceridade do conto, feito para ser uma boa história de horror gótico.

Os vampiros são os mesmos velhos vilões batidos, com a diferença de que aqui recebem o tratamento de horror que o mito precisa. Uma vestimenta digna e só, nada que acrescente ou subtraia algo da velha mitologia dos chupadores de sangue. A Peste Vermelha que espalham ameaçando destruir a humanidade é descrita de forma tão banal que parece mero personagem coadjuvante, como um garçom invisível ou soldados morrendo no plano de fundo. Aliás, o melhor plano de fundo são os cenários típicos da obra de Mignola, com suas igrejas góticas abandonadas, cidades assombradas em beiras de estradas, marionetes possuídas, tumbas bolorentas.

É nas outras histórias, nas outras “criaturas” que está a melhor parte do livro.

Três amigos de Lorde Baltimore são convocados a esperá-lo numa das cidades devastadas pela peste vermelha dos vampiros. No decorrer do livro, eles compartilham suas histórias, sobre como conheceram Baltimore e quais acontecimentos sobrenaturais presenciaram ao longo de suas vidas que os fizeram acreditar no caso de Baltimore. Nesses três contos está toda a energia da publicação.

De resto, tive a impressão de estar lendo não uma novela, mas um roteiro de filme de monstro. Ou melhor: uma sinopse de roteiro, como uma propaganda apelativa destinada a conquistar executivos de cinema, dando-lhes gana de abrir uma nova franquia de filmes para adolescentes.

Os combates entre Baltimore e as criaturas malignas parecem terem sido pensados para suscitar cenas de ação cheias de efeitos especiais, bonitas de se verem nas telas, mas chatas de se atravessarem em páginas que deveriam conter apenas literatura. Aparentemente nada foi escrito que não pudesse ser facilmente adaptado.

Não é nenhuma surpresa, aliás. Hoje em dia, todos sabem, a maioria dos autores de livros e HQs só produzem pensando na adaptação cinematográfica.

Não conheço nenhum outro texto do co-autor, Christopher Golden, então não sei dizer o quanto do livro é Mignola e o quanto é Golden.

No mais é uma bela publicação, com as ótimas ilustrações de Mignola e fácil de agradar. Dá prazer caminhá-lo até o fim, como se trilhasse uma apaixonada homenagem à literatura de horror fantástico de Bram Stoker, Mary Shelley e Herman Melville (aliás, os três na dedicatória do tomo).
Baltimore e o Vampiro (Baltimore, Or, The Steadfast Tin Soldier and the Vampire).
Escrito por Mike Mignola e Christopher Golden. Ilustrado por Mike Mignola.
Tradução de: Otavio Albuquerque
Editora: Amarilys



Um comentário:

Jacques disse...

Sou fã do Mignola e não conhecia esta hq, que parece ser muito boa.
Ao que tudo indica, o universo bizarro e gótico de Hellboy se repete aqui da forma magistral de sempre.
Valeu.