quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Baudolino


Esse é o peso das palavras de Baudolino, protagonista do primeiro romance do Umberto Eco que li:
“[...] Quando íamos para Roma um padre chamado Corrado contava para mim as mirabilia daquela urbe, dos sete autômatos do Capitólio, [...] ou das estátuas de bronze que se moviam sozinhas, ou de um palácio cheio de espelhos encantados... Depois chegamos a Roma, e naquele dia em que estavam se matando, dei no pé e segui pela cidade. [...] vi apenas rebanhos de ovelhas entre ruínas antigas, [...] Ao regressar todos me perguntavam o que vi, e o que podia dizer, que em Roma havia apenas ovelhas entre ruínas? Não acreditariam. Assim, eu contava certas mirabilia que haviam me contado, acrescentando outras, [...] Todos ficavam suspensos das minhas palavras e diziam que pena que tivemos de matar os romanos e não pudemos ver todas aquelas mirabilia. Assim, durante todos esses anos, ouvi as maravilhas da cidade de Roma, na Alemanha, na Borgonha e inclusive aqui, só porque falei a seu respeito.”

Baudolino é mentiroso de mão cheia, tanto que confessa: “O problema de minha vida é que sempre confundi aquilo que via com aquilo que desejava ver”.

Através dele, Eco tece um épico delicioso, brincando com os fatos históricos através de uma testemunha não confiável e, no entanto, irresistível. A obra, de natureza fantástica e com genes de romance policial (tal qual O Nome da Rosa, segundo dizem - tá na pilha de leitura) é uma mentira erudita apaixonadamente verdadeira. Se conhecemos a história de Baudolino em seu testemunho ao historiador Nicetas Coniate (1150-1215), conhecemos uma história da formação da Europa e de sua mentalidade e espiritualidade através do último narrador, o próprio Eco, que nos cumprimenta com uma piscadela comprometedora na última frase do livro.

As mentiras de Baudolino permitem a Eco estabelecer mitos à sua cidade natal, antes desprovida dos mesmos. A ficção de Eco não mente, porém: nos conta verdades estonteantes, justamente quando os fatos são mais suspeitos. Aconselha o bispo Oto a Baudolino: “O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.”

Conforme Baudolino deixa a idade média documentada e verificável e se aproxima do reino do Preste João, num extremo oriente fantástico, vou deixando as suspeitas, bem ali, quando mais precisava não acreditar.

Jovem camponês adotado pelo imperador Frederico I, o Barba Ruiva, Baudolino ajuda na fundação de Alexandria da Itália, escreve a famosa carta do preste João, fabrica relíquias religiosas, dá velas e ventos ao mito do Graal e viaja a um reino fantástico habitado por monstros. E no fim parte de novo para cumprir promessas feitas a quimeras que nos convencem. “Viajar rejuvenesce”, diz ele. Atravessar esse tomo vale por uma pequena peregrinação. A passagem me custou umas velharias errôneas da adolescência que faziam peso na minha estante. Fiz a permuta num sebo. Levo esse objeto cheio de letras, agora que o conheço, dentro de um relicário habilidosamente falsificado, no alforje dos meus favoritos.

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