domingo, 5 de setembro de 2010

Neon Azul


O irmão sobrenatural do Moulin Rouge é inconstante, de cômodos mutantes, clientes em metamorfose. Entre as duas boates a cor do nome vai do vermelho carnal ao azul fantasmagórico, porém, sua cumplicidade com a arte boêmia persiste. Em Neon, Eric Novello garante a presença dos objetos de influência de quase todas as musas: dança, teatro, música, escultura e literatura. A convocação da arte como engrenagem importante do livro fica mais evidente quando um dos personagens, o assassino que atravessa espelhos, preocupa-se com a precisão artística de suas obras macabras. 

O bar pertence ao personagem da capa do livro, O Homem, como é chamado. Espécie de deidade urbana misteriosa. Sua presença é temida e desejada. É o elixir mágico que lubrifica todas as histórias do livro. Não há moralidade em seus atos e seus propósitos são desconhecidos. O gerente do negócio e um dos principais instrumentos do Homem é Armando, que nunca dorme, característica que lhe multiplica pelos dias e o torna o gerente perfeito para um inferninho tão multifacetado. O Neon, aliás, (o bar ou o livro) parece admitir em suas entranhas monstruosas apenas pessoas eficientes em suas áreas de atuação. Eficientes ou engajados com a perfeição. Fica no ar se a excelência dos personagens (turistas ou tripulação) é o que os põe dentro do bar, ou se é o bar que amplifica tudo o que toca. Tal idéia é reforçada principalmente na última história, quando a distância do estabelecimento faz dois personagens diminuírem-se às vistas um do outro. 

O bar parece diferente para cada freqüentador. Os acontecimentos narrados sem piedade, enfumaçados por uma realidade fantástica aqui, comum ali, enxergados por um personagem de cada vez, com seus erros e suas mentiras, multifaceta o livro.

O capítulo que o escritor Lucas Moginie (personagem de outras histórias de Novello) protagoniza é emblemático. Numa quase metalinguagem, Lucas ganha um papel virgem do Homem, feito cheque em branco metafísico, para que consiga escrever o próprio livro que seguramos. Escreve o que deseja e sua escrita se confunde com o que lemos.

O cachorro batizado “minotauro” logo no início da primeira história sugere: há um labirinto aqui a ser explorado. . Eis o emaranhado que supus percorrer: um labirinto constituído pelos próprios personagens que, ombro a ombro em suas vicissitudes, compõem o caminho que se entrelaça. Cada corredor desse prédio de pessoas desemboca noutros corredores e os modifica, algumas vezes de forma trágica. Os personagens são os blocos nas paredes do bar, os clientes que fazem a casa. Se o visitante do bar dentro da história degusta o neon através dos drinks preparados pelo barman Diego, o leitor só pode fazê-lo através da seleção de personagens, preparados e servidos pelo autor feito uma adega fantástica colecionada com esmero. Cada história é uma nova batida alcoólica e os humanos envolvidos com a boate são seus ingredientes, misturados em dosagens e combinações diferentes de capítulo em capítulo. O bar demoníaco, ora angélico, é aumentado e diminuído pela ação de seus freqüentadores que, copulando com a luz azul da entrada, se vêm intensificados em suas melhores e piores características. O autor parece ter se preocupado em garantir que a leitura de seu livro fosse como uma noite, ou uma vida, nas mesas de seu bar fictício. Conseguiu.

Embora o bar evoque todo seu charme e perfume alucinógeno sobre o leitor, perde algo de seu carisma para as histórias paralelas e entrecruzadas dos personagens. Depois de um tempo as descrições do bar, embora cada vez feitas de forma diferente, ficam levemente cansativas, pois o Neon não apresenta novidades apesar de sua natureza metamorfa. O que é bom é que queremos mais da ação catártica de seus clientes e funcionários.

É certo dizer que a promessa feita na orelha da capa, quase aviso de bruxas, se cumpre. “... o leitor terá muito o que lembrar quando deitar na cama e fechar os olhos por própria conta e risco”. Ainda agora, horas após o término da leitura, e uma noite entre mim e sua conclusão, volto ao livro com um gosto de sonho antigo na boca. Tenho a impressão de que o livro ditou um pesadelo meu, esquecido. Ou sonhei uma página do Neon sem me lembrar corretamente. O livro absorveu algo de mágico do bar indefinível. Imagino sentir o cheiro do drink azul, homônimo à obra. Afirmo ter sido o melhor livro nacional que li este ano. Recomendo a investigação de suas páginas.

Neon Azul, Editora Draco. Autor: Eric Novello
Gênero: Literatura fantástica, Fantasia Urbana, 168 páginas

Nenhum comentário: