
O irmão sobrenatural do Moulin Rouge é um estabelecimento indefinível, de cômodos mutantes, clientes em metamorfose. Entre as duas boates a cor do nome vai do vermelho carnal ao azul fantasmagórico, porém, sua cumplicidade com a arte boêmia persiste. Em Neon, Eric Novello garante a presença dos objetos de influência de quase todas as musas: dança, teatro, música, escultura e literatura. A convocação da arte como engrenagem importante do livro fica mais evidente quando um dos personagens, o assassino que atravessa espelhos, preocupa-se com a precisão artística de suas obras macabras. Infelizmente, o serial killer que encara seus feitos como obras refinadas é figura comum do gênero noir.
(Percebo que começo esses comentários com as características que menos me agradaram no livro. Começo com os pelos em ovos que encontrei para equilibrar um pouco, para mim mesmo, a persistência longa que a qualidade positiva do livro deixou nos ânimos.)
(Percebo que começo esses comentários com as características que menos me agradaram no livro. Começo com os pelos em ovos que encontrei para equilibrar um pouco, para mim mesmo, a persistência longa que a qualidade positiva do livro deixou nos ânimos.)
Embora o bar evoque todo seu charme e perfume alucinógeno sobre o leitor, perto da última história ele perde muito de seu tamanho para as histórias paralelas e entrecruzadas dos personagens. Me parece ter sido proposital. Porém, depois de um tempo as descrições do bar, embora cada vez feitas de forma diferente, ficam levemente cansativas e repetitivas, pois o Neon não apresenta novidades apesar de sua natureza metamorfa. O que é bom é que queremos mais da ação catártica de seus clientes e funcionários. A última história tem um trecho que me pareceu muito arrastado, pouco antes do fim.
O bar pertence ao personagem da capa do livro, O Homem, como é chamado. Sabe-se, logo de cara, que não se trata de um ser humano normal. Sua presença é temida e desejada. Sua aura escurece e ilumina seu redor como a de uma divindade. O Homem é o elixir mágico que lubrifica todas as histórias do livro. Não há moralidade em seus atos e seus propósitos são desconhecidos. O gerente do negócio e um dos principais instrumentos do Homem é Armando, o homem que nunca dorme, característica que lhe multiplica pelos dias e o torna o gerente perfeito para um inferninho tão multifacetado. O Neon, aliás, (o bar ou o livro) parece admitir em suas entranhas monstruosas apenas pessoas eficientes em suas áreas de atuação. Eficientes ou engajados com a perfeição. Fica no ar se a excelência dos personagens (turistas ou tripulação) é o que os põe dentro do bar, ou se é o bar que amplifica tudo o que toca. Tal idéia é reforçada principalmente na última história, quando a distância do estabelecimento faz dois personagens diminuírem-se às vistas um do outro. Declara-se abertamente em mais de uma ocasião que o bar é diferente para cada freqüentador. Essa qualidade quimérica propõe equiparar o bar com o universo. É evidente a pretensão de contaminar o próprio livro com tal qualidade. Somente releituras futuras e resenhas diversas o poderão confirmar. Os acontecimentos narrados sem piedade, enfumaçados por uma realidade fantástica aqui, realista ali, às vezes como que enxergados por um personagem de cada vez, podem conseguir o efeito de múltiplas interpretações com facilidade, o que é ótimo.
O capítulo que o escritor Lucas Moginie (personagem de outras histórias de Novello) protagoniza é emblemático. Numa quase metalinguagem, Lucas ganha uma folha em branco do Homem, feito cheque em branco metafísico, para que consiga escrever o próprio livro que estamos lendo. Ele troca tal desejo pela dádiva de conquistar a personagem que o motiva pelas noites alcoólicas de suas próprias histórias, personagem que lhe escapa, feito graal sádico. Com o papel mágico em mãos, ele perpetua seu encontro com a mulher que pode ser todas as mulheres. Fica inconcluso se tal feito mágico alterou de fato o universo em que vive e que lemos através de Novello. O Neon nos deixa dúvidas.
O cachorro batizado “minotauro” logo no início da primeira história sentencia: há um labirinto aqui a ser explorado. Não sou bom com enigmas, porém, procurei pela casa de cômodos feitos para enganar e só digo que a encontrei sob a graça piedosa da subjetividade, essa qualidade tão querida da literatura. Creio que há outros labirintos em Neon Azul, inclusive o que foi de fato manufaturado por seu autor. Eis o emaranhado que supus percorrer: um labirinto constituído pelos próprios personagens que, ombro a ombro em suas vicissitudes, compõem o caminho que se entrelaça. Cada corredor desse prédio de pessoas desemboca noutros corredores e os modifica, algumas vezes de forma trágica. Os personagens são os blocos nas paredes do bar, os clientes que fazem a casa. Se o visitante do bar dentro da história degusta o neon através dos drinks preparados pelo barman Diego, o leitor só pode fazê-lo através da seleção de personagens, preparados e servidos pelo autor feito uma adega fantástica colecionada com esmero. Cada história é uma nova batida alcoólica e os humanos envolvidos com a boate são seus ingredientes, misturados em dosagens e combinações diferentes de capítulo em capítulo. O bar demoníaco, ora angélico, é aumentado e diminuído pela ação de seus freqüentadores que, copulando com a luz azul da entrada, se vêm intensificados em suas melhores e piores características. O autor parece ter se preocupado em garantir que a leitura de seu livro fosse como uma noite, ou uma vida, nas mesas de seu bar fictício. Conseguiu.
É certo dizer que a promessa feita na orelha da capa, quase aviso de bruxas, se cumpre fatalmente. “... o leitor terá muito o que lembrar quando deitar na cama e fechar os olhos por própria conta e risco”. Ainda agora, horas após o término da leitura, e uma noite entre mim e sua conclusão, volto para uma página ou outra do Neon para verificar sua realidade. Julgo ter sonhado algo que penso ter visto no livro, ou o livro parece ter ditado um sonho antigo do qual não me lembro mais. Há algo na ponta da língua, uma surpresa secreta, flor escondida nalgum canto das páginas que pressinto encontrar a qualquer momento nas lembranças da própria leitura. Com toda certeza o livro absorveu algo de mágico do bar indefinível. Imagino sentir o cheiro do drink azul, homônimo à obra. Afirmo ter sido o melhor livro nacional que li este ano. Recomendo a investigação de suas páginas com fervor.
Neon Azul, Editora Draco. Autor: Eric Novello
Gênero: Literatura fantástica, Fantasia Urbana, 168 páginas
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