segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Steampunk, Histórias de um Passado Extraordinário


Steampunk, Histórias de um Passado Extraordinário brilha nas estantes como a primeira incursão brasileira publicada no gênero. Por economia de tempo e espaço, meu e do eventual leitor, essa entrada fica sem uma introdução satisfatória. Creio que todos já toparam com essa estética que por aí abunda, em filmes e peças de arte. Qualquer curioso já foi verificar a fonte de inspiração desse movimento. Basta dizer (perdão se é a milésima vez que lê isso) que se trata de um ramo da ficção científica que lida com um passado hipotético onde a tecnologia do século XIX, alimentada por máquinas a vapor, é mais fantástica do que foi. É comum o uso de personagens clássicos da literatura daquele tempo, que já estão em domínio público.

Antes de tomar logo o atalho para minhas opiniões sobre cada um dos contos dessa excelente publicação, aviso que tentarei não perder tempo com resumos de enredo. Vamos logo ao que interessa:

O livro abre com o conto “O Assalto ao Trem Pagador”, de Gianpaolo Celli, organizador da coletânea. Sob a simplicidade duma típica história de “grande roubo”, dessas que assistimos desde as exposições de grandes dificuldades até os imprevistos que já sabemos que serão contornados, está um capítulo duma história maior e mais interessante, sobre a construção duma conspiração que pretende mudar a História. Os protagonistas, dois rapazes e uma moça, de diferentes nacionalidades e habilidades, se unem e se engajam tal qual fórmula de fantasia juvenil, sem maiores razões que não o andar aventuresco da trama. O resultado é uma aventura divertida, embora rasa, que introduz de forma satisfatória o clima que primeiro vem à mente quando começamos a pensar o que seria uma história steampunk.

O conto “Uma Breve História da Maquinidade” de Fábio Fernandes, a seguir, é um dos melhores do livro. Articulado em cima da fábula de Mary Shelley sobre o monstro de Frankenstein, a história se desenvolve como promete o título, contando de forma deliciosa a história da maquinidade e seu conturbado relacionamento com a humanidade, desde o surgimento do primeiro autômato, feito golem de ferro, sucessor daquele malfadado de carne, até o excelente desfecho no Círculo Polar Ártico.

Em “A Flor do Estrume”, outro ponto alto da coletânea, Antônio Luiz M. C. Costa faz uso de personagens famosos de Machado de Assis e os introduz num Brasil alternativo, explorado pelo autor em outros contos, pelo que sei. Não há explanações excedentes sobre esse universo, apenas o realmente necessário para o desenrolar da trama. Aqui a especulação científica retro que se espera como típica numa história desse gênero dá uma guinada bem vinda: o autor se foca na medicina, sem deixar de lado geringonças a vapor, contudo. O enredo é econômico, fica em segundo plano. O autor se esmerou mesmo em reproduzir a prosa irônica de Brás Cubas. Dá muito mais prazer a quem conhece e aprecia a ficção machadiana.

“A Música das Esferas”, de Alexandre Lancaster, lembra um episódio piloto de seriado de aventura das antigas, com uma espécie de Tony Stark brasileiro do século XIX e seu parceiro de “altas confusões”, amigo de infância, com quem sustenta uma saudável hostilidade. O conto começa com uma cena dramática e misteriosa, decorre na investigação, termina em efeitos especiais. Personagens ingênuos, outros de cartolina. Mas diverte.

“O Plano de Robida: Um Voyage Extraordinaire”, de Roberto de Souza Causo tem um cenário bastante empolgante, envolvendo piratas do ar e tecnologia exótica de civilizações perdidas. Mas tem trechos arrastados para um conto e a história mesmo parece começar a partir do ponto final. É um texto muito bom, mas parece melhor como primeiro capítulo dum romance.

“O Dobrão de Prata”, de Claudio Villa fica deslocado na coletânea. Não é um conto steampunk, embora se passe na época esperada e tenha um barco a vapor com direito a escafandro. Antes é uma história de terror. Clássica, pontuada como tal, sem novidades. O autor tenta replicar o estilo enrugado, romântico-maldito dos primeiros escritores de horror. Ao fazer isso, exagera na quantidade de avisos de que há algo horrível a ser contado no desfecho da história, tanto que impacienta e faz rir, vez ou outra.

“Uma Vida Possível Atrás das Barricadas” de Jacques Barcia extrapola o gênero sem o abandonar completamente. Um casal inusitado, ele robô, ela golem de barro criada por magia cabalística, se refugia numa cidade-estação-espacial em guerra à procura do elixir que lhes permita viver plenamente seu amor. Não vou dar aqui detalhes da trama excelente, estranha e comovente que o autor lapidou no melhor conto do livro, em minha opinião.

“Cidade Phantástica”, de Romeu Martins utiliza personagens de diversos autores, como Julio Verne, Sir Arthur Conan Doyle e Bernardo Guimarães. O enredo, envolvendo um prédio gigantesco, um canhão igualmente grande e uma cidade submersa na fuligem é bastante interessante. O início cheio de ação é ótimo. Só não gostei muito dos diálogos expositivos, meio artificiais, que decorrem depois.

“Por um Fio”, de Flávio Medeiros, fecha com excelência o tomo. O mundo dividido entre França e Inglaterra, engajados numa guerra rancorosa que se arrasta por séculos, serve de cenário para uma tensa batalha entre mar e céu, feita de horas de espera, pouco oxigênio, a manutenção da honra e a esperança de encontrá-la nos olhos do inimigo. Flávio Medeiros utilizou-se muito bem de personagens clássicos de Julio Verne, mais focado no dilema moral da guerra do que na exploração da fantasia científica com as máquinas icônicas que teve em mãos. Não sei se o contrário teria rendido uma história melhor.

Steampunk - Histórias de um Passado Extraordinário, Tarja Editorial
Vários Autores, 184 páginas

4 comentários:

Romeu Martins disse...

Opa, obrigado pela avaliação ;-)

Fiz uma chamada em meu blog

http://cidadephantastica.blogspot.com/2010/11/torre-de-vigia-37.html

Abraço!

Cirilo S. Lemos disse...

Para minha vergonha. ainda não tenho um exemplar.

Fabio Fernandes disse...

Muito obrigado pela resenha!

depossibilidade disse...

Salve Salvaterra.
Curiosidade despertada. risos
Buenas, mas passei para dizer que estás linkado lá no Pedaços de Possibilidade. Abraço!