segunda-feira, 7 de março de 2011

O Desconhecido

O seguinte conto é de Gabriel García Márquez e consta do livro "Textos do Caribe, Vol. 1", série que reúne suas crônicas publicadas ao longo de sua carreira como colunista em vários jornais. Publicado originalmente em maio de 1950 no El Heraldo. O postei aqui por ser de uma publicação pouco conhecida do autor. É um dos meus contos favoritos.

À Germán Vargas


Na varanda, lá em cima, alguém começou a gritar. Uma voz de homem acurralado pela matilha de um pesadelo. Ocupantes dos outros andares, já estávamos sentados na cama antes que viéssemos a compreender exatamente o que estava acontecendo. Os gritos continuaram. A princípio, uivos desgarrados. Depois, quando toda pensão já despertara, transformaram-se em lamentações que se mantiveram contínuas, tremendo no silêncio da madrugada. Mas já soavam passos no assoalho. Quando chegamos à porta, as escadas que levavam ao terraço estavam repletas de curiosos de pijama ou em camisolas de dormir. Mulheres, com os cabelos soltos caindo sobre os ombros e vestindo brancos camisolões, subiam com os homens até o sótão. Aquele que gritava estava lá em cima, no sótão.

Vinte punhos fechados tentaram derrubar a porta. As lamentações cessaram ao primeiro golpe, lá dentro uma luz se acendeu, e o grupo de fantasmas estacou numa fileira, diante da porta que se abrira um instante depois. A porta se abriu e em seu umbral surgiu um homem. Vestia um pijama escuro, e o cabelo desfeito parecia coberto de cinzas. Ninguém falou. Foi o homem parado no umbral e com a porta completamente aberta quem rompeu o silêncio absoluto que se seguiu aos primeiros golpes. “Está bem”, disse. “Podem dizer-me o que se passa?” Sua voz soava lenta, pausada. Não tinha nada do arfar, que se pode supor num homem que acabava de gritar.

A dona da pensão respondeu: “escutamos gritos. Pensamos que estava acontecendo alguma coisa.” O homem guardou silêncio e começou a fechar a porta antes que o grupo de curiosos iniciasse o retorno aos seus quartos. A porta fechou-se. E só então, do outro lado, escutou-se a voz do homem. “Foi para dizerem isso que vieram me acordar?” Lá fora, ninguém respondeu. O homem continuou falando: “Bem, agora suponho que me deixarão dormir.” E apagou a luz.

Quando descemos para a sala, concordamos todos que jamais havíamos visto aquele homem na pensão. Nunca fora à sala de jantar. Ninguém lhe levava alimentos. Ninguém jamais o vira sair ou chegar. Entretanto, ele estava ali, no sótão. Todos, agora, o haviam visto. A dona da pensão foi a última a descer. “Não sei quem será este homem”, disse. Devia sabê-lo, pois era quem alugava os quartos, a única pessoa que administrava todo o edifício. E no entanto, ela insistiu, acreditava que o sótão estivesse desocupado há muito tempo. As mulheres se entreolhavam, amedrontadas. O cachorro (um animal enorme), que dormia num canto, levantou-se e se estirou no meio do grupo. Todos o olhamos. O cachorro bocejou. Todos continuamos olhando-o. O cachorro deu duas voltas e foi dormir no meio da sala, como jamais fizera antes. Ninguém podia entrar às escondidas estando o cachorro ali. E no entanto, todos acabávamos de ver, no sótão, o estanho hóspede do qual não se tinha a menor informação.

De repente, quando ficamos silenciosos, pensando no estranho incidente, uma das mulheres falou. “Todos nós o vimos”, disse. Olhamos para ela. Sim, todos o havíamos visto, mas agora, quando a mulher pediu a descrição do homem ninguém pôde dar pelo menos duas parecidas. O homem havia permanecido na porta cerca de 1 minuto, mas alguém disse que era louro com a pele tostada pelo sol. Outro opinava que era mulato. Um terceiro, que era o homem mais alto que já vira em toda sua vida, enquanto o último afirmava que se tratava de um ancião branco, com uma reluzente cabeleira grisalha. Então a mulher voltou a falar: “estou certa de que já não tem mais ninguém no sótão.” Perguntamos: “como sabe disso?” E ela falou: “porque há muito tempo ninguém vive ali.” Dissemos: “mas acabamos de vê-lo.” E ela disse: “sim, mas não há ninguém. Subamos.” Não soubemos ao certo porque o fazíamos, mas a verdade é que nos pusemos de pé e os dirigimos à escada. Então alguém perguntou: “vocês acreditam que os mortos ressuscitam?” A maioria riu, mas a mulher, a que encabeçava o cortejo deteve-se quando cessaram as piadas. Encostou-se no corrimão e perguntou à dona da pensão: “quantos hospedes moram nesta casa?” “Comigo, 11”, respondeu a dona da pensão. E a mulher perguntou: “todos se levantaram?” respondemos, num coro: “Sim. Todos nos levantamos.” Então a mulher desceu dois degraus e disse, num tom que não tinha nada de dramático: “pois aqueles que não acreditam que os mortos ressuscitam, comecem a contar. Aposto que somos 12”.

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