sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A Morte do Livro


Desagradável. O Rei Acima dos Reis [Gilgamesh] é sentimento de triunfo, derrota, curiosidade e assombro, codificado nas canções que cantam junto ao fogo, com divertidas variações através dos dias. Poemas como esse agora estão sendo gravados nas tabuinhas, como se fossem relatórios administrativos. Como se pudessem ser contabilizados da mesma forma que os rebanhos. Isso é desagradável e não vai durar.

- desabafo anônimo de um escrivão assírio, 
registrado entre relatórios administrativos em escrita cuneiforme, cerca de 2.000 A.E.C

Vertestes vossos textos para o papiro, por ser mais fácil de guardar e transportar. Corrompestes as formas de vossos signos por causa dos meios de escrita, tão diferentes. O fogo que coze a argila, desajeitada e pesada para vossas delicadas e inúteis mãos, torna eterna a linguagem manufaturada. Veremos o que o fogo faz com vossos rolos vegetais.

-  Tiglat IX, O Avançado, 
heresiarca desordeiro, auto-intitulado “filho do dono do mundo”, cerca de 700 A.E.C

Visitei mais uma vez a prensa. Seu processo é triste. As peças frias são trocadas uma a uma, manchadas de tinta e espremidas contra as folhas para evacuar dezenas e dezenas de páginas idênticas. São cópias efêmeras, mecânicas, exatas, e sim, desumanas. Vide nossos tomos: são produzidos com esforço louvável pelas mãos dos copistas. Excedem em muito o vigor dessas cópias frias produzidas nas prensas de tipos móveis. Livros sem suor, sem variação, sem manchas humildes das destras mãos doloridas, enfim, sem alma, não prosperarão.

- Pânfilo da Sicília, cerca de 1500 E.C.

Cheirar um livro mofado, suado, pingado de café, não é apenas fetiche. Cometer e interceptar dedicatórias amorosas, engraçadas, constrangidas; colecionar autógrafos; possuir ex libris desapropriadas; sublinhar frases; emprestar o objeto e tê-lo de volta com células de pele alheias, poeira da vida; são prazeres que nos querem tirar com a reprodução insensata dos e-books. Destruo acidentalmente 3 mil livros ao derrubar meu aparelhinho no chão enquanto livros de mil anos sobrevivem ao tempo, transportando sua mensagem, mais resistentes que as “tecnologias” pueris que duram 5 anos.

- @C4rl0s 2000, 
cerca de 25 de novembro de 2011 E.C., 10h, horário de Brasília, via web

O E-book é informação ágil, sem distrações enganosas, ilusórias. É literatura reduzida ao que ela realmente é. Elétrons de puro pensamento. Ler um e-book é percorrer o raciocino do autor, mimetizar sua linguagem, seu processo de criação, os mecanismos afiados que manipulam seus sonhos. É ser o próprio autor durante a leitura. É mais que percorrer um código para chegar ao sentimento primordial, à sensação angustiante que gerou a obra. É mais que traduzir um extenso calhamaço de Kb gráficos para chegar à fonte emotiva não-verbalizável: é caminhar pela insubstituível  ponte idiomática, literária, que construímos entre nossos espíritos. Cortar esse caminho, injetando conceitos e sentimentos complexos produzidos sem linguagem diretamente em nossos subconscientes é um crime contra aquilo que nos faz humanos!

- Muhamed Carter da Silva, 
cerca de 11 de novembro de 2111 E.C., 10:15hs, horário global, via neuroweb.

[REVOLTA CONTRA A MUDANÇA IMINENTE – SAUDOSISMO DEPRIMIDO E INDIGNADO] – INICIAR DOWNLOAD DE INSPIRAÇÃO LITERÁRIA PRIMORDIAL.

- Muhamed Carter da Silva, 
Edições Bons Tempos Aqueles13DG97. 
Cerca de 11 de novembro de 2111 E.C., 10:16hs, horário global, via neuroweb. 
Compartilhamento automático.

[...]Averróis, mais tarde, falou dos primeiros poetas, daqueles que no Tempo da Ignorância, antes do Islã, já tinham dito todas as coisas, na infinita linguagem dos desertos. Alarmado, não sem razão, pelas frivolidades de Ibn Sharaf, disse que nos antigos e no Corão estava condensada toda a poesia e condenou por analfabeta e vã a ambição de inovar. Os demais o escutaram com prazer, porque defendia as coisas antigas.[...]

- Jorge Luis Borges, 
A Busca de Averróis, 
O Aleph, 1949.

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