domingo, 15 de janeiro de 2012

Umberto Eco faz um contorno da pornografia



Não esgotamos o assunto: “onde termina erotismo e arte, onde começa pornografia?” Umberto Eco, em suas seis conferências Norton, que resultaram na publicação Seis Passeios Pelos Bosques da Ficção, tentou determinar o contorno da pornografia. Em sua conferência sobre o tempo na narrativa (a saber: a diferença do tempo do discurso para o tempo da história, onde podemos levar 3 segundos para ler que mil anos se passaram, ou levar 1 minuto para ler a descrição de 10 segundos de tiroteio), Eco escreve: 



Uma vez me perguntei como é que alguém poderia determinar cientificamente se um filme é pornográfico ou não. Um moralista diria que um filme é pornográfico se contém cenas explícitas e minuciosas de atos sexuais. Mas em muitos processos por pornografia demonstrou-se que algumas obras de arte contêm esse tipo de cena em função de propósitos realísticos (mostrar a vida como ela é) ou éticos (condenar a sexualidade apresentada) e que, de qualquer modo, o valor estético da obra como um todo redime a obscenidade das partes. Como é difícil determinar se um autor está de fato preocupado com o realismo, ou se tem sinceras intenções éticas ou atinge resultados satisfatórios do ponto de vista estético, depois de examinar muitos filmes declaradamente pornográficos, cheguei à conclusão de que existe uma norma infalível.

[...] verifique se quando uma personagem entra num elevador ou num carro o tempo do discurso coincide com o tempo da história. [...] num filme pornográfico, se alguém pega um carro para percorrer dez quarteirões, o carro vai percorrer esses dez quarteirões em tempo real. [...] Tudo o que não é sexo explícito tem de levar o mesmo tempo que levaria no cotidiano — enquanto os atos sexuais têm de levar mais tempo do que levariam na realidade. Então, esta é a norma: quando duas personagens de um filme demoram para ir de A a B o mesmo tempo que demorariam na vida real, podemos ter absoluta certeza de que estamos diante de um filme pornográfico. Naturalmente, as cenas de sexo explícito também são indispensáveis — do contrário teríamos de considerar pornográfico, e não é o caso, um filme como Im Lauf der Zeit [No correr do tempo] (1976), de Wim Wenders.

Grifo meu. Eco pode ter acertado na mosca a questão sobre os filmes pornográficos até o início dos anos 90, quando apresentou suas conferências Norton. Mas houve filmes posteriores (declaradamente pornográficos), e muitos, que desafiaram o método proposto.

Mas é interessante dar-se conta disso: pornografia é a foto crua da vida. Artifícios estéticos para editar a fotografia da vida, fazendo o corte que a abre, que expõe o que não era óbvio, que esconde o que é desnecessário, é erotismo. Toda a arte é erótica, porque edita. A vida é, em si, pornográfica. Até o momento em que pensamos nela e nela fazemos incisões. Até o momento em que a contornamos.

(Desnecessário dizer que excitação sexual nada tem a ver com isso, certo? O asco e o desejo podem vir em proporções diversas tanto do erotismo, quanto da pornografia).

3 comentários:

Wander Shirukaya disse...

Definição estranha... não concordo com ela não.
Primeiro: os dois tempos citados nunca se encontram (é a primeira vez q vejo alguém dizer q sim). Eles podem até ser muito próximos, mas nunca simultâneos.
Segundo: filmes pornográficos também passam por montagem, como qualuqer outro filme; o que muda é a forma da montagem (ex: Malice in Lalaland). Acho q a definição de Eco num ajuda muito não; talvez ainda amparar-se em Freud seja uma idéia melhor.

Boa discussão, Fernando. Grande abraço!

Fernando Salvaterra disse...

Oi Wander, também não concordo totalmente com ela :-)

Wander Shirukaya disse...

Pois é, o problema é que erotismo/ pornografia não tem fronteiras heterogêneas, pois suas definições estão vinculadas à recepção, no caso aqui, o leitor. É difícil, mas não impossivel, buscar uma sistematização dessas fronteiras para que pudessem ser vistas dentro da obra, independente de quem a aprecia. Esse é o desafio.