domingo, 24 de junho de 2012

Sarau Literário Queer: um adendo tardio


Ontem foi o lançamento oficial do volume amarelo da Fantástica Literatura Queer (antologia em série de contos de gênero [fantasia, ficção científica, terror, etc] com temática LGBT da qual ainda falarei com detalhes neste blog) na biblioteca Viriato Corrêa, em São Paulo.

Houve teatralizações e leituras de contos. Então uma mesa redonda com um bate-papo sobre o tema. Durante o debate, um assunto surgiu ao qual eu poderia ter acrescentado algo, não fosse minha síndrome de tremer-feito-vara-verde. Aproveito meu escudo internético contra agorafobia para dizer (faz de conta que eu disse lá). E, por favor, perdoe eu não lembrar quem disse o quê. 

Resumindo: comentaram sobre como as pessoas costumam associar qualquer coisa queer com erotismo e/ou pornografia. Em vários veículos midiáticos, os primeiros volumes da antologia foram noticiados como “antologia de contos eróticos gays”. Alguns participantes lembraram, com razão, que pornografia (e às vezes erotismo) é associada a vulgaridade de pouca qualidade. Logo, muitos fazem o infeliz cálculo: gay = pornô, promíscuo e vulgar. Apontaram que muitos contos da série não têm cenas de sexo explícito, sequer cenas eróticas. E esse é um dos pontos a serem discutidos com a iniciativa: quebrar todos os preconceitos literários (além dos preconceitos sociais de sempre) referentes a personagens gays. Uma das noções errôneas a serem derrubadas é essa idéia de que ao se ter um personagem gay numa história, necessariamente haverá erotismo.

Mas, espera lá, o que eu queria ter acrescentado vai a seguir:

Pessoalmente, me incomoda mais a noção de que sexo explícito é vulgar e, portanto, desnecessário e gratuito do que a estúpida e preconceituosa idéia de que gays são todos promíscuos (como se ser promíscuo fosse algo necessariamente ruim. Muitos heterossexuais que conheço se gabam de ser). Explico: idéias preconceituosas em pessoas preconceituosas, por mais exasperantes que sejam, é algo meio que já esperado. Mas pensamento conservador com moral dos anos 50 em pessoas inteligentes que escrevem livros também é um passo atrás. Não estou dizendo que qualquer pessoa no sarau da FLQueer defendeu ou afirmou esse conservadorismo. Pelo contrário. Só quero registrar aqui o que me passou pela cabeça no momento e que minha timidez me impediu de dizer.

(E acho vulgar o uso irrefletido do termo vulgar. Muita coisa taxada de vulgar, pra mim, é pura liberdade praticada por quem está se lixando para o que os outros pensam).

Eu, particularmente, tenho vários problemas com a indústria pornográfica. Sexo explícito está muito longe de ser um deles. Grandes obras da literatura universal contêm sexo explícito heterossexual. Variando a histeria conservadora de época para época, podemos concordar que isso não diminui obra nenhuma. Grandes escritores descreveram com propriedade excitante os movimentos mais variados dos paus e das bocetas de seus personagens. Às vezes com um erotismo de eriçar os pelos pubianos do(a) leitor(a), às vezes com um realismo esmagador de revirar os genitais, às vezes com um romantismo doce e sem vergonha na cara. Vemos a dança das partes pudicas sambar nas nossas letras desde as mil e uma noites até Sade, William Faulkner, Régine Deforges, Anne Rice, Gabriel García Marquez, Alan Moore, George R. R. Martin, etc, etc, etc, etc,.

Por que, então, calhamos de nos incomodar com sexo exposto sem pudor em literatura adulta? Geralmente nos saímos com a confortável tirada: “isso foi gratuito, não acrescentou nada à história”. Embora eu concorde com alguns casos, não consigo deixar de pensar que não nos incomodamos com outros elementos que nada acrescentam à história que estamos lendo, mas sobre os quais nos calamos por não serem de cunho sexual.

Ainda temos muito dessa mentalidade tacanha de sentirmos vergonha de nossa libido. Sem percebermos, ainda relacionamos sexo a algo sujo, pecaminoso, capaz de nos condenar ao inferno e relegar meia humanidade à periferia da dignidade. Ainda associamos sexo a uma coisa secreta que os homens fazem e as mulheres agüentam sem gostar sob risco de “perderem o valor”, como se elas fossem simples propriedades (está aí a origem da culpa do sexo). A revolução sexual ficou nos anos 70. Apesar de ter sido tão importante, ainda não foi suficiente.

Então, no que tange à produção de literatura com protagonistas homossexuais, temos dois caminhos a seguir e ambos são válidos:

1) Histórias com heróis gays em que sexo não é um dos focos da trama. Vamos salvar o mundo e discutir honra, bondade, amizade e homofobia. Há muitas histórias ótimas assim com protagonistas heterossexuais. Queremos heróis homossexuais que sejam tão admirados por seu heroísmo, sua coragem, suas dúvidas, suas provações e fraquezas quanto suas contrapartes heterossexuais. Esse tipo de levada é ótima para literatura juvenil e nada impede que seja trabalhada em literatura adulta também.

2) Histórias em que um dos temas sejo sexo ou ele seja um dos tons da composição. Neste caso, impossível falar sobre sexo sem dizer o que pessoas fazem e desejam na cama (e na mesa, no carro, no banheiro, no chão...). Deixemos de lado o pudor vitoriano e sejamos felizes sem nos sentirmos culpados. Deixemos a culpa e o preconceito para eventuais personagens, quando necessários à trama. Cada autor dá o tom e o nível de detalhes que achar melhor para seu texto. Há uma infinidade de sabores e dosagens a serem explorados. Usemos imagens poéticas, descrições explícitas, insinuações maliciosas e até mesmo a ausência, seja na elipse (o corte pode ser matador se bem aplicado, se a composição assim pedir) ou na frustração de um personagem que fica chupando o dedo. E nesse caso também queremos heróis homossexuais que sejam tão admirados por seu heroísmo, sua coragem, suas dúvidas, suas provações e fraquezas quanto suas contrapartes heterossexuais. Não é o fato de lermos que nossos heróis trepam que nos fará admirá-los menos. Isso é coisa de criança que chora depois de saber o que papai e mamãe fazem na intimidade.

Adotemos, então, qualquer um dos caminhos sem desmerecer o outro.

2 comentários:

MiWi disse...

Ótimos comentários! Acho que você deveria ter falado isso na hora. Sim, eu sei como é se sentir nervoso e tremer - eu normalmente até me esqueço o que ia falar se começo a falar algo mais polêmico diante de muita gente. Mas a gente vai tentando, e eu acho esses pontos muito válidos. Claro, é uma opinião com a qual eu já concordo fortemente, então não foi muito difícil admirar seu artigo, mas, enfim xD

É deveras ridículo mesmo que hoje, numa sociedade que se acha tão liberal (e só acha), sexo ainda seja um tema tão polêmico. Sexo não é mais vulgar do que se alimentar e dormir, e eu não vejo as pessoas cheias de pudores para falar desses temas.

Acho que a literatura com personagens homossexuais precisa se assumir, enfim, como simplesmente literatura, com toda a liberdade de expressão que a literatura com personagens heterossexuais possui.

Fernando Salvaterra disse...

Obrigado pela visita, MiWi!

Sobre ficar nervoso: tenho agorafobia mesmo. Já lidei com ela antes e a suplantei. Mas há 5 anos trabalho só em casa e ela voltou braba :-(

A questão de demonizar o sexo é uma manobra política conservadora, muito útil nas mãos de pessoas que pretendem oprimir até a última gota da alma humana. Temos grandes obras de arte mandando uma banana com estilo pra essa gente. Mas agora sentimos um gostinho dessa mentalidade sobre o universo queer, às vezes, vindo até de pessoas que se consideram mais ou menos libertárias.

Abraços.