quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Série FLQueer: 10 Bons Motivos Para Ler



Já falei brevemente sobre A Fantástica Literatura Queer em dois posts neste blog. Volto à baila para abordar a série em si de forma mais apropriada. Como já pincelei, A Fantástica Literatura Queer (FLQueer) é uma série de antologias com contos de gênero (Fantasia, FC e Horror) que prezam pela diversidade sexual e abordam a homofobia em suas mais variadas intensidades e variações. Os contos são selecionados e organizados por Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro e os livros publicados pela Tarja Editorial. A série completa terá seis livros, cada um deles com uma das cores da bandeira arco-íris do movimento LGBT. Autores de todas as orientações sexuais foram convidados a submeter seus trabalhos para a série e o resultado é empolgante. Além da diversidade sexual, os contos demonstraram uma enorme variedade de temas, estilos e gêneros. A importância de um projeto desses no nosso país, dentro do mercado de literatura que mais cresce é muito, muito grande.

Já li os 3 primeiros volumes da série, por ordem de lançamento: Vermelho, Laranja e Amarelo. O volume verde, recém lançado, tem um conto meu. Ano que vem haverá o lançamento dos volumes Azul e Roxo que estão abertos para recebimento de contos neste momento. (Veja aqui as guidelines para submissão)

Abaixo, apresento alguns comentários sobre os contos que mais me agradaram em todos os volumes e que eu acho que são excelentes motivos para se ter a série inteira. Veja bem, eu não considero isto uma resenha por dois motivos: não abordo todos os contos e falo apenas das características que mais me agradaram. Então, digamos que os comentários abaixo sejam... sinopses opinativas ;-). Estão na ordem em que aparecem nos livros.

Há outros contos que me agradaram. Porém, aqui me limitei a comentar apenas os favoritos.

Então lá vai. Dez bons motivos para ler a série FLQueer:



1) Um pterossauro morto-vivo!
O conto que abre a antologia é um desfile verborrágico de neologismos, sangue e coisas estranhas. No melhor dos sentidos. Morgana Memphis Contra a Irmandade Gravibranâmica, da Alliah, poderia se passar numa cidade vizinha à Cidade de Transmetropolitan, HQ de ficção científica de Warren Ellis, na qual o universo do conto é inspirado. Ele pode ser conferido na íntegra aqui, então não digo mais nada.

2) “Para que toda essa luta se amanhã vamos embora? Foda-se o jardim, vamos sapatear nas flores.”
É Foda Existir, da Camila Fernandes, é uma excelente tragédia romântica. A protagonista se dirige à sua parceira num monólogo bonito e melancólico, nos contando a história de seu intenso relacionamento. Camila apresenta uma prosa introspectiva e repleta de imagens irônicas, musicais, aspirantes a epígrafes. Ler o conto vale um namoro. Egocêntrico, meio amargo e triste, mas que deixa saudade.

3) Sodomitas!
Cristina Lasaitis escreve um dos pontos altos de toda a série. Redescobrimos a destruição de Sodoma e Gomorra pelo ponto de vista da filha mais nova de Ló. Cristina dá nomes e personalidades às filhas negligenciadas pelo texto bíblico, tornando-as protagonistas de um épico empolgante, realista e profundo, impugnando as noções de sagrado e profano.


4) Uma batalha nível quebra mundo
Em Queda, de Osíris Reis, um exército gigantesco sitia um grupo de divindades. A guerra decidirá não apenas o destino de um mundo, mas de toda a realidade. Eu não gosto de batalhas exageradas estilo Cavaleiros do Zodíaco, mas esta me agradou. O melhor do conto é o que está em jogo, que diz respeito à natureza das divindades sitiadas e as motivações das divindades que lideram o exército. Osíris usa a ação hiperbólica para tecer comentários certeiros a respeito da natureza intrinsecamente machista da homofobia com grande propriedade.


5) Magos Urbanos
Dá para ter um gostinho do futuro livro de Eric Novello através do seu conto Sonhos e Refúgios. E sim, a expectativa aumenta. O enredo base é enganosamente simples — para esquecer um relacionamento, o protagonista inicia outro. Só que, desenvolvido num cenário tão envolvente e intrincado quanto este, em que as atuais religiões dominantes inexistem e a humanidade convive com uma infinidade de seres sobrenaturais, o conto nos mostra novos sabores em um prato que julgávamos conhecido.

6) Lobisomens gays
Em Eu Era Um Lobisomem Juvenil, Rober Pinheiro vai direto ao ponto: uma aventura sangrenta, regada à vingança. Neste conto os lobisomens formam comunidades complexas e antigas. Eles se misturam à humanidade sem perder suas características culturais. O pano de fundo perfeito para debater o preconceito fundado em tradições antigas. Debater, nesse caso, é eufemismo mesmo: estamos falando de criaturas poderosas com suas próprias leis e temperamento explosivo. Depois de ter lido o conto pensei o quão desafiador teria sido ter tido essa ótima ideia durante os dias em que jogava Lobisomem, o Apocalipse e a abordado na mesa de RPG.


7) Ventos uivantes
No conto Palestra de Lançamento, de Antonio Luiz M C Costa, conhecemos um pouco mais sobre o vasto cenário de história alternativa do autor (Brasil dos outros 500), em que Portugal não perde a soberania sobre os mares e transfere o império para o Brasil, resultando num país muito diferente do nosso. Uma nação utópica que preza as liberdades de crença e orientação sexual, unindo todos os povos na construção dessa utopia. A maior diferença nesse universo é a grande presença dos povos indígenas sul americanos, o que torna o cenário tão exótico para nós que vivemos numa sociedade que brotou em cima do genocídio desses mesmos povos. Para completar o caldo, Antonio sempre usa personagens e autores da literatura mundial do século XIX. Neste conto, é a vez de Emily Brontë dar o ar da graça de sua versão alternativa. Emily, ou Mila, deixa de ser a "autora de um romance só" por ter imigrado para o Brasil acompanhando o pai e toda a família. Na palestra de lançamento de seu novo romance, Emily conta para o público como conheceu a famosa amazona (icamiaba) Guataçara, uma das heroínas da Revolução contra Dom João. Então acompanhamos a história de Guataçara e suas peripécias sexuais. O conto é leve, bem humorado, romântico e cheio de referências.

8) Este conto
O terror psicológico de Este Labirinto, de Astásia, é o recheio de um conto denso, incontornável e imersivo. A história se passa na Grécia antiga, envolvendo os cultos dionisíacos. É o mais interessante tratamento fantástico da mitologia grega que li ultimamente, muito mais focado nos deuses como crença e culto e no desenvolvimento disso do que nas pirotecnias de deuses e semideuses belicosos e estilosos a que nos habituamos. Tudo isso embalado num romance intrigante entre dois rapazes, capaz de interferir no destino de uma divindade.

9) Heroínas no bico do corvo
Duas Gotas de Sangue e Um Corpo Para a Eternidade, de Carina Portugal é um suspense interessante com direito a amor incestuoso consensual. Acrescente lesbianidade e conhecimentos mágicos a este relacionamento e posicione-o numa vila na Inglaterra Renascentista às voltas com espíritos perigosos e caça às bruxas para se ter a dimensão exata do drama.

10) Pessoas que são naves espaciais!
Sarah Helena injetou um romance brando, quase platônico e, mesmo assim, apaixonante em O Carro de Guerra do Herói. Num tempo e num espaço distantes, em que a humanidade se gasta numa guerra infindável contra uma civilização alienígena, as naves de combate têm como principal tecnologia a simbiose com pilotos humanos que se mesclam ao maquinário para realizar manobras impressionantes. O relacionamento entre um piloto-nave e seu capitão começa a ultrapassar a simples sincronia profissional. O resultado é um namoro tocante e sensível tendo como pano de fundo um conflito de space opera igualmente interessante. Um dos melhores contos da série.

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