terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Papoula da Índia

Meu colega de acaso da internet, que curte legião urbana em segredo, igual eu: tô sabendo. Eu sei como é, sei sim. A gente aprendeu a não confessar isso há muitos anos, por causa da idiotice dos fãs barulhentos da banda. E passou tanto tempo sem confessar isso, que até parou de ouvir. Parou tanto de ouvir, que até esqueceu. Mas a legião ficou aqui, no dna fumarento das pessoas que nos tornamos, com esse monte de frases pretensiosas e esquisitas e muitas vezes geniais do Renato, que pra gente pareciam insuportavelmente límpidas e afiadas por que tínhamos lido pouco. E nós aprendemos a fabricar essas frasezinhas e a enganar os outros que leram pouco. Mas enganamos com carinho, vai dizer? Hoje penso em você, meu colega de acaso da internet, que foi feito de legiões antigas lá na adolescência e delas deixou de lembrar. Coisas além da música, você sabe quais, tipo vampiro: a máscara, violão na esquina com os amigos, conversas intermináveis no telefone, truques capengas de cartas, confissões constrangedoras nos portões à noite, maturidade fabricada na roda de pinga com refri, namoros melancólicos. Eu sei que deixamos de dizer que gostávamos da legião não por arrogância, mas pra evitar a chatice sem fim. Vamos fugindo da chatice juntos. Pensei em você hoje, pois ouvi algumas músicas deles. Dá uma cócega preguiçosa. Experimenta lá, meu colega de acaso da internet, que curte legião urbana em segredo, se não dá uma melancolia brega essa merda.

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